História da vida de um carrinho sem sorte que todos os dias teme o destino traçado em direcção a um monte de sucata.

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Horóscopo

É claro que este horóscopo não é meu. É do meu dono. Li isto na MagikTuning 25 e acho que condiz MESMO com ele, um misto de Aquário e Peixes:
 
Aquário
Vanguardista como poucos olha para o carro e vê... uma jarra com flores. Acha que é tuner, mas na verdade nem sabe o que é um automóvel! Por isso deve deixar de inventar cenas! Isso de substituir os bancos por colchões de água é realmente muito à frente...
 
Peixes
Junta duas características perigosas num tuner: é indeciso e deslumbra-se com facilidade. Ora isto significa que não sabe o que quer para o seu carro, só sabe que quer alterá-lo! E por outro lado não pode ver nada de diferente que quer logo colocá-lo no seu carro. Estamos a ver qual é o resultado...

Informações


Se estiver a tirar a carta de condução de pesados, seja de mercadorias (categoria C) ou de passageiros (categoria D), ou simplesmente se interessa por coisas de Mecânica ou do Código de Estrada encontra aqui um excelente artigo onde se encontram muitas informações que se poderão revelar de extrema importância na hora de realizar o Exame de Mecânica.
Se pretender conhecer as contra-ordenações graves devido a infracções às disposiçôes do Código da Estrada e legislação complementar encontra aqui um excelente artigo.
 

O Forfie aconselha uma visita ao

um site dedicado à solidariedade, Língua Portuguesa e Universo Lusófono


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Terça-feira, 11 de Julho de 2006

Certa noite tive um sonho

    Há dias o meu dono foi fazer o que vulgarmente se chama de exame de Mecânica, para obtenção da carta de condução da categoria D. Embora saiba que isso é bastante importante para ele, fiquei preocupado, porque como dentro em breve vai passar a conduzir autocarros de passageiros, de certeza que não lhe sobrará muito tempo para perder comigo. Nem tão pouco sei se me continuará a ligar como até hoje. Os autocarros são tão grandes ao pé de mim... será que vão gostar tanto dele como eu gosto? Tenho receio que eu já não lhe seja útil. Estará na altura de ser levado por alguém como aconteceu ao XZ? Tenho medo do que me possa acontecer, e até tenho dormido mal por causa disso. Há tanto tempo que não vou dormir à minha garagem quentinha e sossegada. Já tenho saudades dela! Sei que agora estou mais perto do meu dono, e que ele até me usa muito mais vezes, tantas que eu por vezes até me julgo já um carro de família, mas acho que ainda me falta alguma coisa. Acho que nunca vou conseguir ser o carro «dele».
    Senti logo que ele vinha contente, ainda mal a chave entrara na minha porta. Tinha passado no exame, e eu agora levava-o à escola onde ia marcar as aulas de condução e dar a novidade aos colegas. Havia um lugar mesmo em frente à escola e estacionei aí, vendo-o atravessar a rua. Ele estava contente, eu, não podia deixar de sentir um aperto no carburador devido à angústia de não saber o que me vai acontecer. Se ao menos conseguisse comunicar com ele, falar-lhe como falo com os outros carros meus colegas, mas não posso. Resta-me esperar.
    Passado um bocado ele voltou e pôs-me a trabalhar. Como de costume, deixa-me sempre a funcionar um pouquinho ao ralenti, pois diz que isso é bom para a lubrificação do meu motor, e eu até gosto. Quando me meto à estrada, até parece que estou pronto para correr o mundo todo.
    Batem-me no vidro da janela. Está ali um rapaz, talvez um pouco mais novo que o meu dono, com um sorriso que lhe vai de orelha a orelha.
    «__ Vais passar ali ao Chile?», perguntou. «__ Dás-me boleia?»
    «__ Então? Hoje não vais às aulas? Saíste-me cá um baldas!»
    «__ Não, hoje não vou. Aliás era por isso que te queria falar. O exame foi difícil?»
    Senti ali uma leve hesitação. Não era para saber do exame que ele ali estava. Devia haver outra coisa, mas o quê?
    «__ Nem por isso. Havia uma ou duas perguntas sobre matéria que eu nunca tinha estudado, mas acabei por conseguir chegar lá com bom senso.»
    Continuaram a falar das perguntas do exame e depois sobre uma mulher que atravessou a passadeira à minha frente com uma saia tão curta que lhes deu motivo para mudar o tema da conversa e rir um bocado, mas eu notava que o meu passageiro não ia bem, ele mexia-se demasiado no banco. Alguma coisa o estava a enervar, e estávamos a chegar ao Chile.
    «__ Onde queres ficar?» __ Perguntou o meu dono sem ter reparado no estado de nervos do outro.
    «__ Onde puderes parar está bem, apanho já ali o Metro.»
    Encostei à direita. Era um pouco complicado parar ali, mas não devia demorar muito. De certeza que não ia estorvar os meus colegas.
    «__ Bom, então adeus, a gente vê-se por aí...» __ Disse o meu dono enquanto lhe estendia a mão, que ele apertou enquanto abria a porta.
    «__ Obrigado...»
    Deteve-se sem sair.
    «__ Vais para onde? Para a outra margem, não é? Então passas ali em Entrecampos. Eu apanho o Metro aí, pode ser?»
    Voltou a fechar a porta sem esperar pela resposta. Pelo caminho falou de como ficou sem emprego e com a mulher e uma filha pequena. Não tinha direito a subsídio de desemprego, porque teve de assinar logo a rescisão do contrato no dia em que foi admitido e a mulher pouco ganhava como empregada de uma loja num centro comercial. Estava a tentar recomeçar a vida, uma nova vida, e tinha esperança de o conseguir fazer como camionista. Parece que até já tinha um emprego assegurado numa empresa qualquer. Pedira dinheiro emprestado aos pais para conseguir pagar a carta e as contas avolumavam-se enquanto o dinheiro desaparecia. Precisava mesmo de passar, porque emprego acreditava estar garantido, logo que a tivesse.
    «__ Há dias cortaram-me a luz e já não sei a quem pedir mais.» Senti a água destilada ferver na bateria. Aquilo cheirava-me à canção do bandido, um fado choradinho para cravar umas notas ao meu dono. Apeteceu-me abrir a porta e atirá-lo fora, mas contive-me
    «__ Como já passaste, não vais precisar mais do livro. Podes emprestar-mo? Já não tenho dinheiro para o comprar, e já tentei tudo, até pedi um livro emprestado na Biblioteca, mas é muito velho, é de 76 e nem fala dos motores diesel. Não há nenhum de mecânica. Eu depois devolvo-to, podes ficar descansado! Só que a mim, agora ajudavas-me bastante. É só para conseguir fazer o exame.»
    Fui abaixo quando o ouvi. Confesso que não estava nada à espera disto. Algumas gotas de água saíram-me pelo esguicho do limpa-vidros. A chave na ignição fazia-me rodar o motor de arranque, mas eu estava tão absorto com o que tinha ouvido que nem me lembrava que tinha de pegar. O motor de arranque rodou outra vez e pus-me a andar dali, ainda a tempo de ouvir uma buzinadela e um piropo enviado por um motorista de táxi:
    «__ Tira a chocolateira daí...»
    Segui até Entrecampos, quase sem prestar atenção ao caminho nem ao trânsito. Deixei-me guiar até lá, enquanto tentava perceber como é que há pessoas que precisam e não têm quem as ajude, nem local ou organização a quem recorrer. Como é possível precisar de aprender algo, ter de estudar e não o poder fazer por falta de dinheiro? Como é possível ser obrigado a faltar a uma aula para envergonhado pedir a um colega os restos que ele tinha utilizado e não precisava mais? Estava chocado com a mentalidade dos homens, que conseguia ser bem pior que a de alguns carros prepotentes que conheci desde que fui criado.
    Nessa noite tive um sonho, um sonho em que homens e carros viviam juntos em harmonia e que se ajudavam mutuamente, um mundo em que o conhecimento era considerado um bem essencial, e como tal não tinha preço. Sonhei que ninguém tinha de pagar para ter acesso à formação que era livre e gratuita e que apenas as leis do mercado ditavam depois quem seria mais recompensado pelo uso correcto que fizesse da sua aprendizagem. Sonhei que carros com mais de 10 anos não eram abatidos em troca de abatimentos no IRS e ensinavam aos homens como eram constituídos e o que deviam fazer para criar novos irmãos menos poluentes, mais económicos, mais amigos do ambiente e da atmosfera de que os homens precisam para viver ou mais seguros para os proteger. Alguns ensinavam os homens a conduzirem-nos outros, as regras de trânsito para evitar os acidentes que nos vitimam mutuamente.
    Nessa noite tive um sonho, e foi o mais bonito de todos os que tive até então. Nessa noite, dormi bem.
sinto-me:
Aquele som...: Jean Michel Jarre - Oxigene
Desgraças ordenadas...:
publicado por Forfie às 19:19
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